Xeque-mate da rainha

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Informações gerais: escrito por Elizabeth Fremantle, livro um da saga Tudors, lançado pela editora Paralela. Ficção – ficção histórica.

Sinopse (retirada da parte de trás do livro): “Divorciada, guilhotinada, morta, divorciada, guilhotinada. Esse é o histórico do meu noivo.
Katherine Parr, sexta esposa de Henrique VIII, trilha um caminho perigoso entre a paixão e lealdade. Muito mais nova que o marido, ela precisa aprender rapidamente a lidar com os perigos da corte Tudor, especialmente no que diz respeito a sua fé  e ao seu verdadeiro amor.”

Antes de tudo digo que, apesar de ser o primeiro livro de uma série em lançamento, o livro tem um final completo e satisfatório. Digo isso, porque peguei esse livro achando que seria um só volume e, quando vi o segundo volume ser lançado, comecei a ficar angustiada, pensando que terminaria o livro e teria de esperar a sua finalização nos volumes seguintes. Foi um preocupação, no final, infundada, o segundo volume continua o foco na família Tudors, porém com outras histórias a serem contadas.

Esse livro me conquistou desde seu inicio por ser uma ficção histórica, uns de meus gêneros favoritos, e com a personagem principal do sexo feminino. A começar o livro, este melhora mais ainda, por ter personagens femininas fortes e repletas de personalidades, mesmo com os homens da época tentando apagar essa força a qualquer custo.

Penso por que os homens de antigamente, e até mesmo em nosso século,  se sentem tão ameaçados e intimidados quando encontram uma mulher com grande inteligência, forte e segura em suas opiniões? Não poderiam aproveitar para colaborarem um com o outro e crescerem juntos em suas ideias e movimentos? Entretanto, movem para impedir essa igualdade, o sexo masculino parece precisar se sentir sempre superior, e, para isso, não oferece as mesmas oportunidades para as mulheres e tenta inferioriza-las até estas murcharem ou quebrarem. É isso que este livro deixou mais evidente para mim: a parte de não instruírem as mulheres do mesmo modo, deixando certas características como sendo masculina assim como liderar, governar, discursar e estudar certas áreas. Desvalorizando o máximo aquelas nascidas com os mesmos dons considerados masculinos e quanto isso implicitamente não influencia a nossa sociedade até hoje.

A fé é também muito discutida, já que estamos no período da reforma e contra-reforma, uma luta entre a Igreja e os protestantes. Henrique VIII representa a Inglaterra do momento, sendo alguns momentos a favor do movimento e, outros, seguindo firmemente com os dogmas da Igreja católica. O rei até mesmo possui em seu conselho tanto católicos quanto reformadores, revezando o lado de sua preferência e marcando o seu reinado com decisões bastantes volúveis e com o povo da Inglaterra sendo envolvido por conflitos e incertezas. Nem mesmo a rainha é uma constante para os ingleses.

Essa leitura me fez pensar muito, tanto sobre a rivalidade e luta pelo poder, como sobre as grandes consequências do abuso e do estupro podem ter em uma pessoa. Contudo, decidi parar aqui minha resenha com medo de passar spoilers ao entrar em certos temas. Xeque-mate da rainha trouxe grandes questionamentos sobre o modo de vida a qual decidimos seguir e o quanto ainda precisamos melhorar como seres humanos. É um livro maravilhoso e vale a pena ser lido com carinho, mesmo se você discordar de minhas ideias aqui ditas. Leiam e tenham sua própria visão sobre esta história.

 

Amor a todos ❤

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Darth Plagueis

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Informações gerais: escrito por James Luceno, Star Wars Legends, lançado pela editora Aleph. Ficção – fantasia espacial.

Sinopse (retirada do Skoob): “Darth Plagueis, mais que qualquer lorde Sith antes dele, ansiava pelo poder absoluto. E de fato se torna capaz de desenvolver uma habilidade de força inimaginável: o controle da vida e da morte. Seu aprendiz Darth Sidious, ou Palpatine, aprende a dominar em segredo o lado sombrio da Força, enquanto aos olhos da galáxia procura seguir sua escalada de poder, alcançando postos cada vez mais altos na hierarquia do governo. Um deseja viver para sempre; o outro busca o controle político supremo. Juntos, eles poderão enfim destruir os Jedi e dominar a galáxia. A não ser que impiedosas tradições Sith fiquem em seu caminho… Em uma trama envolvente, com estudos do domínio da Força, golpes políticos, complexa diplomacia, assassinatos e lutas ambiciosas, James Luceno mostra como dois dos mais poderosos Sith definirão o destino da galáxia.”

Antes de começar a ler este livro, tive medo de não gostar e ser uma leitura lenta para mim, pois tenho dificuldade de ter empatia com personagens anti-heróis e/ou vilões; e essa leitura o foco é justamente focada em dois Sith. Entretanto, um livro bem escrito vence esse obstáculo o qual possuo dentro de mim e Darth Plagueis foi um desses casos. Eu, desde o primeiro capítulo, já me empolguei na escrita de James Luceno e em sua proposta de conhecer melhor Darth Plagueis e Darth Sidious.

O livro da Aleph, como sempre, é lindamente construído, tanto em sua capa, quanto em seu conteúdo, possuindo em suas últimas páginas uma entrevista muito relevante com o escritor. Vem também com um marca-páginas característico de seus livros lançados de Star Wars. A editora nunca me decepciona em seu trabalho de deixar a obra atrativa, não só em suas histórias, como visualmente.

O livro é dividido em partes, marcando os diversos momentos importantes na vida de Darth Plagueis, porém sempre tomando cuidado de não humanizar demais esse ser sombrio da Força e seu aprendiz Palpatine. Darth Plagueis é um Muun obcecado com a imortalidade e a manipulação da Força para criar e destruir vidas, parecendo muitas vezes ser um cientista sombrio além de um Sith. Dividindo seu tempo entre estudos e o plano maior dos Sith de destruírem os Jedi e se tornarem novamente soberanos na galáxia.

Esta obra, mesmo sendo Legends, é de grande importância para fãs de Star Wars, pois explica basicamente todos os acontecimentos dramáticos da trilogia prequels, e, na minha opinião, deixando-a muito mais interessante. Luceno desenvolve de forma maravilhosa toda a manipulação e planos elaborados dos Sith para a sua volta ao poder. Todo o duro trabalho de Darth Plagueis, de seus antecessores e seu aprendiz de se manterem escondidos do Conselho Jedi, e ao mesmo tempo utilizá-los para os seus planos sombrios, principalmente o plano de poderem finalmente se revelarem Sith perante toda a galáxia sem o perigo de serem extintos.

O livro também dá para nós uma maior elaboração de como funciona todo o código Sith e os seus princípios, mostrando as grandes diferenças dos Sith lidarem com a Força comparados aos Jedi. Além de nos apresenta diversos personagens já conhecidos ou citados nos filmes, desenvolvendo melhor a história de vários deles nesse universo expandido de Star Wars.

Resumindo, é um livro empolgante e muito bem escrito o qual traz diversas explicações e curiosidades importante ao universo expandido dessa saga maravilhosa. Um livro muito interessante que indico para todos os fãs Star Wars,

 

Amor a todos ❤

A invenção das asas

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Informações gerais: escrito por Sue Monk Kidd, lançado pela editora Paralela. Ficção – histórico.

Sinopse (retirada do Skoob): “Em sua terceira obra, Sue Monk Kidd, cujo primeiro livro ficou por mais de cem semanas na lista de mais vendidos do New York Times, conta a história de duas mulheres do século XIX que enfrentam preconceitos da sociedade em busca da liberdade. Sue Monk Kidd apresenta uma obra-prima de esperança, ousadia e busca pela liberdade. Inspirado pela figura histórica de Sarah Grimke, o romance começa no 11º aniversário da menina, quando é presenteada com uma escrava: Hetty “Encrenca” Grimke, que tem apenas dez anos. Acompanhamos a jornada das duas ao longo dos 35 anos seguintes. Ambas desejam uma vida própria e juntas questionam as regras da sociedade em que vivem.”

Peguei esse livro na Bienal, pois gosto muito da editora Paralela, por ela ter, justamente, livros e abordagens bem diferentes da maioria. Escolhi esse pela capa e pelo nome, mas, no fim, li a sinopse só para garantir. Não poderia ter escolhido melhor. Nunca li um livro de Sue Monk Kidd, inclusive o seu mais famoso A vida secreta das abelhas, e, mesmo assim, penso que não poderia ter começado melhor ao conhecê-la se não por este livro.

O livro tem narração em primeira pessoa dividida por duas personagens: Sarah e Encrenca. A vida das duas é bem diferente, apesar de viverem na mesma propriedade. Sarah é filha de fazendeiro aristocrata e Encrenca é uma dos escravos dessa família, com a vida delas se encontrando ao Encrenca ser oferecida como dama de companhia no aniversário de onze anos da Sarah. As duas personagens são apaixonantes com suas personalidades e situação de vida praticamente opostas, tendo uma relação incomum  entre elas para aquele tempo e local onde moravam.

O livro mostra a grande luta, não só pela a abolição da escravidão, como pelo direitos iguais para todos. A luta de as mulheres e os negros terem sua voz diante da sociedade, com os mesmo direitos e poderes. A leitura mostrou para mim a nossa obrigação de sempre lutarmos pela igualdade, e, como, ao nos acomodarmos ao um estilo de vida comum a todos, estamos, muitas vezes, sendo tão ruins quanto aqueles que controlam e desrespeitam a humanidade do outro. As diferenças são muitas vezes criadas por nós mesmos, para mantermos alguma supremacia, um certo padrão e controle sob outros. Para mim aqui mostra mais uma vez de como nossa sociedade mudou pouco, com as pessoas sempre buscando estar acima dos outros de alguma forma, com uma sede de controle sem fim e desumano.

Nesse livro dá motivos para mantermos a esperança e força, para perseguir nossos propósitos, pois é muito melhor morrer tentando do que viver repleto de arrependimentos por ter oportunidades perdidas. Talvez nossos sonhos não se realizem, mas nossas ações tragam de algum jeito novas visões e conquistas tão boas quanto as desejadas inicialmente. Devemos sempre lutar para evoluirmos em nossos pensamentos e atos perante a cada ser, valorizando cada um por suas diferenças e qualidades, respeitando a todos.

O trabalho de Sue Monk Kidd me emocionou e me trouxe forças para encarar o futuro. Sua escrita me conquistou e despertou a vontade de ler mais livros dela, por sua suavidade e sensibilidade marcadas em cada página. Adorei o livro e o recomendo de coração.

 

Amor a todos

Will e Will: um nome e um destino

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Informações gerais: escrito por John Green e David Levithan, lançado pela editora Galera Record. Ficção – jovem adulto.

Sinopse (retirada do Skoob): “Em uma noite fria, numa improvável esquina de Chicago, Will Grayson encontra… Will Grayson. Os dois adolescentes dividem o mesmo nome. E, aparentemente, apenas isso os une. Mas mesmo circulando em ambientes completamente diferentes, os dois estão prestes a embarcar em um aventura de épicas proporções. O mais fabuloso musical a jamais ser apresentado nos palcos politicamente corretos do ensino médio.”

Estava muito curiosa ao ler esse livro. Na verdade, sempre fico curiosa em ler livros escritos em parceira que tenha, pelo menos, um autor o qual eu conheça. Sabia desde o início que teria como tema o LGBT, porém, todos os bons livros possuem mais de um assunto sendo abordado. E para mim o tema mais evidenciado nessa leitura foi a amizade.

O livro começa apresentando, em capítulos diferentes, cada um dos Wills, que além de terem o primeiro nome igual, também possuem o mesmo sobrenome: Grayson. Os dois tem vidas bem diferentes, em vários sentidos, como: suas personalidades (óbvio), estilo de vida e cidades onde moram cada um… Contudo, os dois estão passando por dificuldades, principalmente sociais. O primeiro Will apresentado tem um amigo, descrito por ele como super gay, a quem sempre está acompanhando e se auto-impõe duas regras bem restritivas de nunca se importa e sempre ficar calado; dificultando muito, assim, dele fazer novos amigos e se mostrar ao mundo. O outro Will possui depressão e foi abandonado pelo pai, tendo muita dificuldade de conversar abertamente com outros a sua volta e, automaticamente, não criando amizade com ninguém.

Ninguém deveria evitar esse livro só por ter alguns personagens gays e por  ter preconceitos tolos, pois esse livro, como disse antes, para mim tem como maior tema a amizade e a dificuldade de sermos sinceros com as pessoas a nossa volta. Ele para mim teve várias lições, inclusive sobre depressão e o ‘peso’ ainda presente por ser gay, porém o que me chamou mais atenção é o quanto podemos sofrer ao não ser sinceros com aqueles que amamos e a nós mesmo. Quantas consequências negativas podemos ter ao decidir se isolar do mundo e desistir de interagir com ele. A verdade é: todos nós temos sentimentos e emoções, e ,ao negar isso, estamos somente empurrando a sujeira para debaixo do tapete.

Will & Will  para mim deixa claro como ninguém é perfeito, que todos nós possuímos nossos próprios pesos e cicatrizes, e ao se relacionar com alguém, temos de aceitar não só nossos próprios defeitos quanto o da outra pessoa também. Contudo, podemos usar esse relacionamento para nos autodestruirmos mais ou nos ajudarmos a melhorar, a nos curar.

O livro possui uma grande sensibilidade em todos os seus temas abordados, porém se preocupando de não ser muito pesado em sua leitura; tendo diversos momentos emocionantes, densos (os quais até mesmo chorei), e outros leves, com algumas partes de alívio cômico. Uma leitura bem rápida, mas não sendo boba, pois há momentos em que os autores estão tendo aquela conversa séria com o leitor, mostrando novas possibilidades de questionar antigos hábitos e comportamentos, novas oportunidades de aumentarmos nossa empatia.

Amei o livro, tendo uma grande presença do estilo de John Green na parte de ter momentos ensinando sobre alguma teoria física ou algum fato curioso da cultura pop, o que para mim torna o livro ainda mais divertido. Não tenho muitas críticas negativas, exceto que realmente não me adaptei bem ao estilo de escrita de um dos Will, o qual não tinha letras maiúsculas quase nunca e tinha um diálogo mais parecido com o da internet, mas não foi nada que me atrapalhasse a entrar na história e sentir a emoção do personagem. É um livro muito gostoso e acredito que me ajudou a se tornar uma pessoa melhor.

 

Amor a todos ❤

O conto da aia

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Informações gerais: escrito por Margaret Atwood, lançado pela editora Rocco. Ficção científica – distopia.

Sinopse (retirada do skoob): “Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, o a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano.”

Li esse livro por uma recomendação da minha amiga, se não fosse ela, provavelmente nunca leria, pois tinha medo de sofrer muito na leitura. Eu tinha conhecimento da história pela série que está sendo lançada agora, apesar de não tê-la assistido, e sabia da sinopse e de que havia cenas bem fortes nela, me fazendo fugir mais ainda desta leitura. Entretanto, a escrita da autora é de uma forma a qual não permitiu (graças a Deus) de certas cenas serem fortes em demasia para mim, colocando uma quebra nelas com memórias da personagem ou outros acontecimentos. No fim, sou muito grata por minha amiga ter me recomendado O conto da aia, pois adorei a história e as reflexões trazidas por esta obra.

Esta leitura trata de um mundo monstruoso e possível de ocorrer em nosso futuro, por isso, essa resenha será, talvez, uma resenha da qual mais vou expor minhas opiniões e sentimentos.  Nele conta sobre um período que as mulher são separadas em esposas; marthas, as que cuidam da casa; e as aias as quais não tem direito nem mesmo de possuir um nome próprio servindo somente para a fecundação e dar filhos às esposas inférteis.

O conto da aia é uma ficção científica distópica escrito em 1985, e considerei interessante eu tê-lo lido depois de A mão esquerda da escuridão, não pela história de Le Guin (apesar de também tratar de desigualdade de gênero, mesmo que abordado de outra forma), mas pela introdução da Ursula. Nesta última, a autora diz que o escritor de ficção científica não prevê o futuro, ele escreve o que percebe a sua volta e enfeita com “mentiras”. Penso que é por isso deste livro está tão popular, com uma série adaptada de TV tão elogiada, a nossa realidade de agora, mais de 30 anos depois primeiro lançamento do livro, está descrita em cada página deste livro. Isso me assusta, pois isso quer dizer para mim, em pleno momento de pânico, que não avançamos em nada, aquilo visto por Margaret Atwood em 1985 ainda está presente em nossa sociedade, talvez até mais materializada do que na década de 80. Estamos repletos de ódio, não só no Brasil, não só na América, em vários locais ao mesmo tempo. Temos uma epidemia.

Então, sigo minha linha de pensamento, o que não progredimos dentre esses 32 anos para nos identificarmos tanto com este livro maravilhosamente escrito? Na minha humilde opinião, a primeira teoria minha é: continuamos em busca de uma resposta simples a qual resolvida, tudo funcionaria de forma maravilhosa e todos seriam felizes. Podemos fazer isso colocando a culpa no que/ ou quem quisermos, no que estiver vulnerável ou/e em minoria. Depois disso, colocando a mira em um ou mais de um grupo, cria-se uma política que deseja corrigir ou extinguir esse grande “erro”. Sempre queremos e torcemos para ter uma resposta simples ao nosso problema social, com uma resolução simples e rápida de resolvê-lo. Não queremos uma ação a longo prazo, queremos uma ação e resposta imediata. Como o mestre Yoda responde a pergunta do Luke sobre o lado sombrio em comparação ao poder do lado luminoso – O lado negro não é mais poderoso, apenas mais rápido, mais fácil e mais sedutor.

Outro ponto para mim é a nossa habilidade, para nos protegermos a si mesmo, de enxergar na maioria das vezes o outro como um objeto. Não podemos ajudar a todos que estão passando por um problema, não podemos sentir a dor de cada um como fosse a nossa, senão enlouquecemos. Contudo, começar a enxergar um grupo inteiro como objeto, ou como inferior, isso pode se tornar altamente problemático. Não sei se conseguirei me explicar direito e peço desculpa por isto, mas ao ver o outro sempre como inferior ou como algo a ser utilizado, ao desumanizar totalmente alguém, faz com que nós realizemos atos monstruosos e, anteriormente, impensáveis. Para mim é isto o que ocorre em vários momentos desta leitura.

Minha última queixa a nossa sociedade, a qual nos deixa tão próximos do futuro do livro, é nossa insaciabilidade pelo poder. No livro mostrar diversos momentos de luta, de competitividade, de um personagem ou grupo ter mais poder do que outro. Não há problema em ter poder, mas da busca de se sentir maior ou melhor do que o outro, de sentir superior a outras pessoas. Sempre procuramos, nós humanos, nos sentir a cima dos outros. A eterna procura de domínio, ao ponto de acabar, em alguns momentos, aceitando ser subjugado por um (grupo ou pessoa), só para ter outro mais abaixo para dominar. O complexo de ser Deus, o desejo de controle. Ainda estamos nesse ciclo nada saudável, ainda não aceitamos o fato de não haver maiores nem melhores, e, sem aceitar isto, não conseguimos realizar grandes mudanças.

Margaret Atwood me conquistou com sua escrita diferente e sua habilidade de me fazer questionar diversas atitudes, tanto minhas quanto a dos outros. Ela larga uma realidade plausível como um aviso para nós, porém também chama atenção de nossos defeitos atuais como sociedade e seres humanos. Ela nos dá, com esta obra, uma oportunidade de mudarmos nosso caminho e nos tornarem melhores. Recomendo a todos os que gostam de ficção científica e futuro distópico.

 

Amor a todos ❤

A mão esquerda da escuridão

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Informações gerais: escrito por Ursula K. Le Guin, lançado pela editora Aleph. Ficção – ficção científica.

Sinopse (retirada do skoob): “Genly Ai foi enviado a Gethen com a missão de convencer seus governantes a se unirem a uma grande comunidade universal. Ao chegar no planeta Inverno, como é conhecido por aqueles que já vivenciaram seu clima gelado, o experiente emissário sente-se completamente despreparado para a situação que lhe aguardava. Os habitantes de Gethen fazem parte de uma cultura rica e quase medieval, estranhamente bela e mortalmente intrigante. Nessa sociedade complexa, homens e mulheres são um só e nenhum ao mesmo tempo. Os indivíduos não possuem sexo definido e, como resultado, não há qualquer forma de discriminação de gênero, sendo essas as bases da vida do planeta. Mas Genly é humano demais. A menos que consiga superar os preconceitos nele enraizados a respeito dos significados de feminino e masculino, ele corre o risco de destruir tanto sua missão quanto a si mesmo.”

Este livro foi me recomendado pelo canal do Youtube da Aleph, a qual havia uma resenha do livro contando também um pouco da escritora. Decidi, mesmo um pouco temerosa, a experimentá-lo e não me arrependi nenhum pouco. Ursula K. Le Guin desde sua introdução neste livro (a qual vale muuuuito a pena ler) já mostra a sua sensibilidade, ela nada impõe ou tenta nos convencer, mas vai nos conquistando devagar, mostrando seu ponto de vista de modo suave e discreto ao longo da leitura. O livro é do tipo o qual li devagar para poder digeri-lo aos poucos, tentando capturar o máximo possível dos detalhes; porém fui me empolgando cada vez mais na história. Para aqueles que querem uma história imprevisível e gostam de uma boa ficção científica, recomendo de coração aberto.

O livro já começa com Genly Ai há alguns meses no planeta Gethen, um lugar onde está passando por uma era glacial, e, por isso, é conhecido pelo nome Inverno. Genly, pelo menos para mim, não é um personagem apaixonante, nem altamente heroico, ele é um homem repleto de preconceitos e ideias fixas imbecis em sua cabeça, me irritando muitas vezes por suas opiniões declaradas em seu diário. Sua fala muitas vezes coloca como feminino ou afeminado somente os defeitos como: competividade, bisbilhotamento, falsidade… provando, para mim, uma plena confusão da definição de caráter e personalidade com sexualidade. Apesar disso, também me deparei com meus próprios preconceitos, me aproximando com Sr. Ai, ao me perceber muitas vezes confusa de como essa sociedade funciona sem ter um sexo definido, como seu modo de reprodução e de organização.

Achei muito bonito alguns pontos colocados pela autora e um deles foi o fato de qualquer ser humano do planeta de Gethen poder engravidar e como isso já a faz uma sociedade tão diferente da nossa. Por eles poderem ampliar, ou as características dos homens, ou das mulheres, em cada kemmer (um tipo de ‘cio’), todos conseguem se colocar no papel de criador, de paternidade e maternidade, trazendo consequências belas para a sua organização social. Ao ler sobre isto realmente me emocionou e pensei em como é realmente mais fácil compreender ao outro quando se passa pela mesma situação que a dele.

Outro ponto a qual me chamou muita atenção foi uma rápida discussão da diferença de um patriotismo de amor a sua nação, para outro repleto de medo e raiva. Na primeira há o orgulho e vontade de trazer o melhor para sua terra, mesmo isso ajudando as nações a sua volta como consequência. Na outra há medo dos governos diferentes do seu, da invasão, da mudança, e, trazendo assim, uma raiva e ódio a todos os forasteiros. Qual é o preço que se paga por estes medos? Pois, em Gethen não existe nem mesmo palavra para guerra, pois, provavelmente, por viverem um planeta já muito hostil em seu clima, há muitas limitações de alimentos e de proteção. Qual seria o preço do progresso feito por guerras e competitividades entre as nações? Cada passo neste planeta pode significar o extermínio da espécie, se não houver cuidado; e cada colaboração e acolhimento pode salvar diversas vidas. O que é a competitividade entre nações perto de uma extinção da humanidade?

A autora escreve de modo tão brilhante que tive um impacto cultural junto com o personagem, com falta de rótulos comuns a mim, com a linguagem e organização de datas diferentes das nossas. Encontrei até mesmo problemas com as definições diferentes dadas pelo próprio Genly Ai, pois ele não veio da mesma Terra que a nossa, pelo menos, não na do tempo em que vivemos. Entretanto, não se assuste com isso, no final do livro tem uma explicação de como funciona o tempo de Gethen, e há textos dentro da história os quais explicam as demais informações importantes sobre essa cultura tão complexa e rica do planeta Inverno. Leia sem preocupar tanto em entender, pois as coisas vão se esclarecendo ao longo da leitura com a suavidade e paciência de Ursula K. Le Guin.

Aqui não passei nenhum spoiler do que acontece nessa história, porém, tentei mostrar como Ursula K. Le Guin discute, com sua simplicidade e suavidade, diversos assuntos. Decidi não tratar todos, mas somente aqueles que já podem ser encontrados desde o início da leitura e que me me chamaram muita atenção. É uma leitura rica sem tirar sua diversão e leveza. Espero ter feito uma resenha a altura deste livro maravilhoso. Lerei outros livros dela com certeza!

 

Amor a todos ❤

Os bons segredos

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Informações gerais: escrito por Sarah Dessen, lançado pela editora seguinte. Ficção – Infanto-juvenil.

Sinopse (retida da parte de trás do livro): “A convivência de Sydney com os pais estava cada vez mais difícil desde que Peyton, seu irmão mais velho, foi preso por causar um acidente que deixou um garoto paraplégico. Sydney parecia a única a responsabilizar o irmão, ao contrário de seus pais, que enxergavam o filho como vítima.
Certa tarde, para fugir desse clima insuportável, em vez de voltar para casa, Sydney entra numa pizzaria ao acaso. Lá conhece Layla, filha do dono do restaurante, e a amizade entre as duas é instantânea. Logo Sydney se vê contando à garota segredos que ninguém mais sabe. Nesses encontros com a nova amiga, Sydney também descobre outro prazer: entregar pizzas e assim pode espiar  fragmentos da vida das pessoas. Mas ela vai perceber que chegou a hora de abandonar o ponto de vista de mera observadora e assumir o papel de protagonista de sua própria vida.”

Este é o primeiro livro que leio da Sarah Dessen, e soube dela pelo snapchat da editora Seguinte. Esse livro me atraiu por ter em entre um dos seus temas os diferentes tipos de relacionamentos e o sentimento de se sentir invisível. Contudo, o livro discuti muito mais, ele fala também do sentimento de mudança, dos diferentes pontos de vista e compreensões sobre o mundo e pessoas ao nosso redor, de nossas vulnerabilidades e nossos dons. É um livro com uma leitura leve e rápida, tendo como foco a adolescência, porém não se limitando só a nisso, conseguindo acolher outros públicos além dos jovens. Não tive uma super identificação com o livro, provavelmente por já ter passado pelo ensino médio e a adolescência, mas tive sim alguma empatia e reconhecimento com os sentimentos dos personagens, chorando e me emocionando em várias partes.

O livro começa com toda a família recebendo a sentença de Peyton, irmão de Sidney, pelo juiz, e a autora usa, a partir daí, em várias outras situações, referências e metáforas sobre a espera e o final de um julgamento; mostrando o quanto foi marcante isso para Sidney e a família.A personagem principal no início é pura culpa e raiva pelo atos do irmão e da família, com a mãe sempre abrandando o comportamento de Peyton, o irmão sempre se envolvendo em problemas e o pai se mantendo distante da família, se focando mais em seguir a mãe e/ou resolver os problemas encontrados em seu trabalho. Peyton, desde de sempre atrai atenções por sua beleza e carisma naturais, e a partir do ensino médio começou a se envolver em problemas cada vez mais grave até o momento de atropelar bêbado um adolescente 15 anos voltando para casa.

Por isso, Sidney sempre se sentiu na sombra de seu irmão, invisível a todos, inclusive na escola, por estudar no mesmo local do irmão; e decidi fugir disso, se mudando para uma escola onde ninguém conhecia ela e sua família. A personagens principal, ao longo da leitura, então, vai criando novas amizades e evoluindo com seus relacionamentos; percebendo que, do mesmo jeito que não a enxergavam, ela não conseguia mais ver como era seu irmão, cometendo o mesmo erro de sua família com ela.

Com essa diferença entre os irmão, e de outros personagens, a autora também mostra que nenhum dos dois extremos é positivo, nem a invisibilidade, nem a atenção extrema. Em um as necessidades, a personalidade e os problemas da pessoa são totalmente ignorados, porém no outro a pessoa se sente na necessidade de se manter sempre dentro das expectativas dos outros, ficando presa em hábitos e padrões nem sempre positivos. Peyton, sem querer fica sempre no holofote, se torna um fantasma na vida irmã, sempre a assombrando de alguma forma, mesmo ausente fisicamente. Sidney e Peyton, com sua diferenças, tem a mesma questão a ser resolvida, o como se expressar e mudar sua vida. Todo mundo tem seu assunto delicado – como diz Mac um momento para Sidney, e sempre algo complicado de se mostrar, conversar e transformar.

A escola nova é o modo da personagem principal tirar um pouco o foco no irmão para se dar espaço de mudar,mantendo em segredo a prisão do irmão, pelo menos até conhecer Layla e sua família. Eles, do seu jeito de ser, vai mostrando novas perspectivas e dando novas oportunidades de Sidney se desenvolver, incluindo ela em suas vidas e conseguindo vê-la. Com os Chathams, ela descobre que pode existir bons segredos, surpresas boas ao continuar seguir em frente e enfrentar os obstáculos apresentados na sua vida.

É um livro bonito o qual consegue tratar de diversos assuntos com grande sensibilidade e leveza, dentre eles uns bem delicados. Eu conseguir ver perfeitamente a evolução, não só da personagem principal, como o de todos a sua volta. Leria tranquilamente as outras obras da autora. É uma ótima leitura para quem quer se distrair e, ao mesmo tempo, se emocionar

 

Amor todos ❤